sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Sútras I-8, I-9, I-10 e I-11

Como prometido ontem, hoje os sútras que falam sobre os outros quatro tipos de vRittis, além do conhecimento correto (pramáNa), que vimos ontem:

É interessante lembrar que no sútra I-5 se fala que alguns tipos de vRittis são dolorosos e outros não-dolorosos. Pátañjali deixa isso aberto para interpretação. Agora que temos um sútra para cada tipo de instabilidade, contando com o post de ontem, podemos refletir: o que é doloroso? Conhecimento equivocado? A memória pode trazer dor, mas também pode trazer alegria. Aliás, essa definição de memória, 'a não-extinção de experiências passadas', eu acho genial e é um dos meus sútras preferidos.

Lembrando; tudo isso é vRitti, instabilidade e só se suprimindo isso chegamos ao Yôga, para Pátañjali.

Amanhã tem mais!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Sútras I-5, I-6 e I-7

Prosseguindo com o primeiro capítulo do Yôga Sútra, Samádhi PadaH (Trilha do autoconhecimento):

Aqui Pátañjali começa a falar dos tipos de vRittis com os quais estamos identificados antes de chegar no estado de 'chitta vRitti nirôdhaH' sobre o qual falou em I-2. Se quiser ver os sútras anteriores veja o  post anterior.

Interessante: 'conhecimento correto' é um vRitti. Seja ele obtido "de fora para dentro", isso é, a partir da percepção e de relatos, seja "de dentro para fora" - pela dedução, pois esta se situa na razão, no corpo mental. O pensamento é alimento para a mente se manter instável...

Amanhã postarei os outros quatro tipos de instabilidade.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Sutras I-3 e I-4

Prosseguindo o que foi iniciado ontem, hoje os sútras I-3 e I-4 do Yôga Sútra de Pátañjali, na tradução de DeRose. Se você quer saber o que é isso, por que estou usando essa tradução, ou ler os sútras anteriores, veja o último post.

Então, quando conseguimos acabar com os vRittis (instabilidades), o observador toma consciência de sua própria identidade. Pátañjali opõe aqui instabilidade e identidade, de maneira que a primeira ofusca, oculta a segunda, como uma matéria densa eclipsando algo mais sutil... Quem já praticou um pouco mais entenderá esses sútras de forma diversa de quem nunca o fez.

Amanhã tem mais!

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Yôga Sútra de Pátañjali - vamos estudar?

Estava mais uma vez estudando o Yôga Sútra e tive uma idéia: por que não ir postando aqui os sútras na sua ordem, para que todos possamos estudar e refletir juntos? Muitos sútras deste tão importante livro do Yôga só tem sentido se lidos em sequência.

Farei o seguinte: a cada dia postarei dois ou três sútras, na sequência e dexarei ou não o meu comentário. Quem quiser, pode acessar os outros posts para ler os últimos com mais contexto. Utilizarei a tradução do DeRose por dois motivos: ela é a melhor que já tive acesso e tenho em casa. Se alguém tiver/quiser comparar com outras traduções e até indica-las seja bem-vindo a fazer comentário, ok?

Então vamos lá!

O Yôga Sútra é dividido em quatro partes: Samádhi Páda, Sádhana Páda, Vibhuti Páda e Kaivalya Páda.

A primeira parte, Samádhi PádaH (questões de transliteração também serão bem vindas - na presente tradução que tenho em mãos aparece tanto Páda quanto PádaH com o h com pontinho embaixo, indicando o visarga, que estou colocando como H maiúsculo aqui), está aqui traduzida como 'Trilha da Hiperconsciência'.




Esse segundo versículo é talvez o mais famoso de todo o Yôga Sútra e possui traduções bastante divergentes umas das outras. É aqui que Pátañjali define o que ele entende por Yôga e essa definição irá determinar tudo! É interessante pensar que, pelo menos na presente tradução, a definição que o autor dá do próprio Yôga se assemelha com a definição de meditação, ou da intuição linear, para ser mais precisa.

Para muitos autores, chitta é traduzido como mente, aqui ficou como consciência, que é um conceito diferente. VRitti foi aqui traduzido como instabilidade, em outros está como turbilhão, modificações, movimento, estados, impressões e etc. Por essas duas palavras já se percebe como a tradução influencia!

Amanhã postarei os próximos sútras. Aguarde! 

domingo, 6 de janeiro de 2013

Sobre cegueira e egoísmo

Sou judia e durante minha infância e adolescência fiz parte de um movimento juvenil judaico sionista de esquerda chamado Hashomer Hatzair. Devo boa parte da minha formação como cidadã crítica a esse movimento e posso dizer que boa parte dos meus melhores momentos nesta fase ocorreram naquele espaço.

Em 1995 um fato me marcou profundamente: Yitzhak Rabin, o primeiro ministro israelense que assinou o famoso Acordo de Oslo com Yasser Arafat (quem não se lembra do legendário aperto de mãos, com Bill Clinton posando de Papai Noel?), foi assassinado por um judeu israelense de extrema direita. Eu tinha então 12 anos e não conseguia entender o porque desse absurdo. Talvez até hoje não compreenda totalmente. O maior líder da paz neste conflito, prêmio nobel, morto por... um judeu israelense!

Quando, em 2001, Ariel Sharon (conhecido pelos árabes como 'O açougueiro' - ok, eu sei que depois ele fundou o Kadima, mas na época essa era a posição dele), na época membro fundador do partido Likud, foi eleito primeiro ministro, o golpe foi forte demais. Perdi as esperanças, em um certo sentido na própria humanidade. Como um cara desse poderia ser eleito? Por que tantos queriam continuar essa guerra maluca? Por que um povo que sofreu tanta perseguição e discriminação não coloca a paz acima de tudo?

Assim, acabei por me afastar do sionismo e toda a militância e entrei em uma fase um tanto cética e desiludida com relação à própria natureza humana. Será mesmo a natureza do Homem mesquinha, competitiva? Quem está certo, Rousseau ou Hobbes? Eu era nova demais para conseguir relativizar e queria respostas totais.

Um ano depois disso conheci o Yôga e pude me agarrar mais uma vez a algo lindo, que mostrava o lado bom das pessoas. Com o tempo vi que a ética descrita por Patáñjali é um desafio para todos, e que a absoluta maioria dos praticantes não consegue segui-la, incluindo os instrutores! Muitos, depois percebi, nem tentam realmente. Isso mais uma vez me frustrou. Me agarrava aos dizeres do meu antigo mestre, DeRose: "Yôga é uma filosofia perfeita praticada por pessoas imperfeitas".

Sim, somos imperfeitos e sempre seremos. Deus é a abstração da perfeição que se busca como modelo utópico, sempre inalcançável. Mas o que percebi, tanto no caso de Israel quanto no ambiente do Yôga é que para muitos há um belo discurso sobre ética, valores e aprimoramento que é totalmente contradito com as ações na prática! Alguém que teve sua família vítima do holocausto agora se declara no direito de matar, oprimir, pois é o povo escolhido. Alguém que ensina Yôga e se preocupa demasiadamente com a aparência (veja bem, não estou falando que se deva ser um largado), mais do que com a própria prática ou com ética, na minha opinião é um hipócrita.

Em 2012 fui convidada a assumir um cargo de coordenação no movimento juvenil do qual fiz parte. Qual não foi minha tristeza ao ver a falta de apoio que este recebe da comunidade! Ao ver que um grupo que quer educar para a paz e para o diálogo, para a formação crítica e reflexiva dos jovens, tem pouco espaço aqui. Passamos o ano, entramos em 2013 para comemorar 100 anos de existência do Hashomer Hatzair no mundo e isso me dá esperança: se um movimento tão contra a corrente como o Hashomer, que defende a igualdade e a paz conseguiu se manter vivo, talvez esse nosso mundo tenha alguma solução.

No caso da minha tão cara filosofia de vida, percebi que não é todo mundo que quer e se propõe mesmo a segui-la, e isso não é de maneira nenhuma um problema. O Yôga pode ajudar em muito as pessoas a serem melhores e mais felizes em diversos níveis e aspectos - depende do quanto cada um quer e se propõe a mudar. O que eu ensino afeta a vida de meus alunos e muda cada uma de uma forma diferente...

Talvez a natureza do Homem não seja tão cega e egoísta assim.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Palavra é mantra?

Quando comecei a praticar Swásthya Yôga me encantei pelos mantras desde o primeiro dia. Logo depois de me inscrever na escola, fui informada e convidada para o grupo de mantras que lá ocorria uma vez por semana. Não tinha muita idéia do que se tratava, e me sentei, curiosa, naquela pequena roda com alguém tocado violão, o instrutor tocando derbak e mais três ou quatro alunos que pareciam saber o que estavam fazendo.
 
Lembro como se fosse hoje: o primeiro mantra que vocalizamos - eu com a ajuda de letra e dos colegas - foi Shambhô Mahádêva, um kírtan (mantra de caráter extroversor, alegre, feito geralmente de olhos abertos e acompanhado por instrumentos musicais e a percussão das mãos, em pronam mudrá dinâmico) que depois ficou martelando na minha cabeça por dias.
 
Minha paixão pelo Yôga com toda a certeza se deve em parte aos mantras: como algumas palavras em uma língua morta, acompanhadas de melodia e palmas surte um efeito tão grande! Quando conheci outros tipos de mantra, como o japa (mantra monotônico, introversor, geralmente composto pela repetição de um um único fonema), aumentei ainda mais meu fascínio, pois pude experienciar efeitos ainda mais profundos e intensos.
 
Mas afinal, onde reside a força dos mantras? Vou deixar para a net as definições básicas do que é mantra e me ater na reflexão sobre seu papel e importância. Fico apenas com uma explicação lacônica para começar: mantra é poder.
 
Não por acaso os mantras são sempre feitos em uma língua morta - no caso do Yôga, o sânscrito - afinal as línguas vivas estão em constante mudança, e parte da força dos mantras está na sua repetição exata ao longo dos séculos. Mantra é assim a palavra (ou som) que não muda, e assim ecoa com cada vez mais força em um determinado setor do inconsciente coletivo.
 
Um dizer comum no Yôga é "Palavra é mantra!", que significa que as palavras tem força e o que é dito não pode ser ´desdito´. Ora, isso é algo tão importante de se pensar hoje! Qual é a força das palavras? De um lado temos a mídia que espalha ´verdades´ sem comprovação, que, por mais falsas que sejam, geram consequências. De outro lado temos as redes sociais, onde tudo é dito e copiado e quase nada tem real importância (ou tem?).
 
Vivenciamos uma época onde há liberdade de expressão como nunca antes e ao mesmo tempo há um profundo descomprometimento com o que é falado. Citações de grandes pensadores? Temos de monte no facebook, twitter e cia, sem saber ao certo de alquela pessoa realmente disse aquilo, e em qual contexto. As pessoas promentem aos outros e a si mesmas coisas que sabem que não irão cumprir. E assim as relações se moldam...
 
Tive um aluno, muito querido, que tinha problemas com a palavra. Explico: no afã de agradar e no impulso de se incluir no que o empolgava, muitas vezes ele se comprometia com mais do que podia e falava que iria fazer muito mais do que efetivamente fazia. Assim, quando esse aluno falava qualquer coisa, ninguém realmente acreditava e alguns nem mais ouviam. A palavra tinha perdido sua força.
 
Uma prática que não é normalmente usada no Swásthya mas que pode ser interessante se for feita da forma certa é o mauna, silêncio. Alguns monges passam meses sem pronunciar uma sequer palavra, em voto de mauna. Eu, como sou de tradição tântrica, vejo no mauna um exercício de auto-estudo (swadhyáya), observação e auto-conhecimento. Experimente passar algumas horas em silêncio. Talvez, se não for penoso, um dia. Observe o que acontece posteriormente quando você tornar a falar.
 
Palavra pode ser mantra e é maravilhoso quando ela o é. Pena que hoje, isso é raro.

domingo, 18 de novembro de 2012

Mudança de foco

Quando fiz esse blog, tinha a intenção de manter uma comunicação quase diária com meus alunos e todos os interessados em Yôga, arte e educação. Os primeiros dez meses seriam destinados a uma imersão crítica nos yamas e niyamas do Yôga, sendo cada mês destinado a um deles para que se pudesse mergulhar mais profundamente na reflexão de se e como podemos aplicar estas diretrizes éticas nas nossas vidas, se elas fazem sentido no século XXI, na sociedade capitalista ocidental.

Bem, talvez eu tenha sido um pouco ingênua, imaginando que houvesse uma manifestação maciça de comentários em todos os posts sempre e que o debate - que pra mim é tão fundamental e interessante - naturalmente atrairia um publico. Errei e acertei ao mesmo tempo. Errei ao pensar que quem lê sempre se manifesta - pelo contrário, na maioria das vezes não - mas acertei quanto ao fato de haver pessoas interessadas nesse fórum sobre uma revisão e questionamento da vida e do Yôga na vida. Me equivoquei também no que se refere ao número e a rapidez da repercussão do meu trabalho - este onde divulgo apenas no meu site, no meu facebook e entre meus alunos.

Assim, com o passar do tempo e o surgimento de muitos projetos na vida real, fui deixando essa plataforma virtual para segundo plano, confesso que um pouco desestimulada pela pouca repercussão do blog - afinal 12mil visitas em 14 meses para internet é considerado pouco. Foi então que hoje, ao abrir meu email, recebi o comentário de Francisco Barreto.

Francisco, quero lhe agradecer. Seu comentário me motivou a escrever esse post e com ele mudar um pouco o foco deste blog: esse espaço continuará existindo e será por mim alimentado de reflexões e informações (as primeiras mais importantes que as segundas, afinal, na era da informação qualquer Wikipédia resolve seu problema. A questão é o que fazemos com tanta informação disponível...) não somente sobre o Yôga em si, mas a respeito de tudo o que o circunda - isto é, sobre o ser humano e sua relação com o sigo e com o mundo.

A periodicidade, entretanto, será variada: se houverem pedidos de posts, perguntas ou acontecimentos que suscitem debate e discussão, mais posts serão feitos. Se não, menos posts. As receitas continuarão sendo postadas de tempos em tempos e de vez em quando alguma reflexão minha e avisos de encontros, horários novos de aulas e etc. Agora, a prioridade está nos encontros de Yôga que eu promovo, na prática, nos estudos - enfim, na vida real.

Penso cada vez mais que as pessoas que mais se interessam pelo que escrevo aqui talvez sejam um tanto quanto contra a corrente e não baseiem a maioria de suas vidas na internet, como tantos fazem hoje em dia (me corrijam se eu estiver errada). Eu mesma, sinceramente, me sinto um tanto deslocada neste mundo de rapidez, competitividade e resultados que estamos inseridos... afinal, 12 visualizações dos meus post não é pouco para mim! Significa que o que estou compartilhando aqui de alguma maneira faz sentido para vários!

Que esse fórum seja uma ferramenta de apoio para coisas legais que possamos fazer, juntos ou não.